Erros básicos de português podem custar vagas de estágio a candidatos
19/2/2010 08:47:02
 

Universitários escrevem “nóis sabemos” e “ceissentos”, diz empresa.

Fonte: G1 - Gabriela Gasparin

Erros como escrever “nóis sabemos” ou “univercidade” em redações e testes de
português complicam a vida de muitos universitários em seleções para
estágio. Diante desse quadro, os selecionadores demonstram preocupação.

Levantamento feito pelo Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube) a pedido do G1
revelou que apenas 32% dos candidatos avaliados pelo núcleo passaram no
teste de português em 2009 – o equivalente a 12.577 estudantes de um total
de 39.304.

O teste inclui 30 questões de ortografia. Para passar, o estudante pode
errar até seis delas. Em 2009, apenas 5% dos estudantes acertaram todas as
perguntas, outros 27% erraram de 11 a 29 questões e 41%, de sete a dez.
Nenhum candidato errou o teste todo.

Mais a educação é trasido de casa da familia, com certeza se as penalidades
fosse igual para os menores pensariam duas vezes antes de cometer um crime”
(trecho da redação de um aluno de química)"

De acordo com Carmen Alonso, gerente de treinamento do Nube, os erros de
português são vistos como falha na formação do candidato, pois o esperado
por parte das empresas é que os estudantes tenham domínio do português e
conhecimento de pelo menos um segundo idioma.

Carmen ressalta que ter um bom português é importante para todos os
candidatos, mesmo aqueles das áreas de exatas. “Não importa qual seja a área
de atuação. Quando um engenheiro entra em uma empresa e apresenta um slide
com erros de português, o erro colocará em dúvida a qualidade de seu
trabalho."

Erros

De acordo com o Nube, além dos erros nos testes, os candidatos também
cometem falhas graves nas redações e durante as entrevistas. Entre elas
estão problemas de ortografia, pontuação, concordância, uso de gírias e
abreviações (como “p/” no lugar de “para”).

No Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee), que também recruta jovens
para vagas de estágio, o problema reaparece, diz Noeli David, supervisora do
centro. “Os erros são cometidos por estudantes de cursos como direito e
pedagogia, o que nos deixa bastante assustados”, disse. Veja no quadro
abaixo os principais erros cometidos pelos estudantes.

Piores erros na seleção do Nube

Erros ortográficos em ditados

Erros em redações e entrevistas

Ceissentos (seiscentos)

Seje (seja)

Ociosso (ocioso)

Esteje (esteja)

Exzaltivo (exaustivo)

Nós fomo (nós fomos)

Nescessário (necessário)

Treis, déiz (três, dez)

Asesor (assessor)

A perca da pessoa foi importante para mim (a perda da pessoa foi importante
para mim)

Raciosínio (raciocínio)

Fazeno (fazendo)

Percurço (percurso)

Num gosto de... (não gosto de...)

Cinteze (síntese)

Moro cá minha mãe (moro com a minha mãe)

Submiço (submisso)

Não gosto, mais eu faço (não gosto, mas eu faço)

Cultura

Hoje em dia vivenciamos certas leis, que nós mesmos nos pergunta: ‘Para que
serve isso?’”(trecho da redação de um aluno de ciências da computação)"

De acordo com a professora de língua portuguesa da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC-SP), Jeni Turazza, o problema muitas vezes está
na formação dos estudantes. “A pessoa precisa ter uma formação sólida em
termos de ensino fundamental, médio e graduação. Hoje estamos alfabetizando
em cursos de pós-graduação, o que é preocupante”, disse.

Para a professora, no mercado de trabalho o saber não pode se restringir à
área em que o candidato atuará. “Hoje há instituições que vendem formações
rápidas. O mercado cobra muito mais do que isso. Os saberes devem contemplar
relações interpessoais, interculturais, normas socioculturais, saber como se
vestir e se portar”, disse.

Jeni ressalta que os estudantes precisam ler mais e ampliar os temas da
leitura. Segundo ela, muitos profissionais leem apenas publicações de
assuntos técnicos. “Só se aprimora os conhecimentos por meio do acesso à
cultura”, afirmou.

Veja dicas para aprimorar o português

Leia livros de diversas áreas e assuntos

Participe de eventos culturais (teatro, cinema, museu)

Leia jornais e revistas

Procure conversar com professores e pessoas mais velhas, eles sempre têm
algo a ensinar

Participe de treinamentos e faça cursos de português

Consulte gramáticas, dicionários e livros de português sempre que necessário

Faça testes de português de fontes confiáveis e treine seus conhecimentos

Fonte: Nube e professora de língua portuguesa Jeni Turazza

Internet

Para a professora Jeni Turazza, o mau uso de ferramentas da internet
colabora para que os estudantes não aprimorem o português. Isso porque os
jovens passam muito tempo em redes sociais, o que, segundo ela, não traz
muito conhecimento. “Há boas bibliotecas virtuais, por exemplo”, diz.

A especialista acredita que a questão não é apenas criticar o uso da
internet, mas sim excluir os demais meios linguísticos.

Carmen, do Nube, acrescenta que os estudantes precisam ter a consciência de
que não podem fazer sempre o que gostam. “A vida acadêmica é um ensaio da
vida corporativa. No trabalho, muitas vezes fazemos o que gostamos e o que
não gostamos. É claro que damos preferência para o que mais gostamos, mas a
falta de conhecimento em outro campo é mal vista”, diz.